A próxima fase da IA talvez seja desfazer a própria IA
O surgimento de ferramentas como a Sinceerly diz menos sobre tecnologia e mais sobre uma fadiga nova: a de todo mundo começar a soar igual.
Nos últimos dias, eu me deparei com uma ferramenta chamada Sinceerly, que se apresenta de um jeito quase irônico: “AI to undo your AI writing”. A proposta é simples: você escreve um e-mail no Gmail, com ou sem ajuda de IA, clica no ícone da extensão e ela “humaniza” o texto, com três níveis de intensidade.
A ferramenta destaca as mudanças em amarelo, funciona dentro da janela de composição do Gmail e oferece três reescritas grátis; o plano pago custa US$ 4,99 por mês. A reportagem do Mashable que apresentou a Sinceerly chamou atenção, mas o que eu achei interessante aqui não é nem a ferramenta em si. É o que ela revela.
Da geração para a normalização
A gente passou os últimos dois anos vendo IA ser vendida como solução para escrever mais rápido, responder melhor, ganhar escala e parecer mais produtivo. Agora começamos a ver surgir uma categoria nova: ferramentas para tirar o cheiro de IA daquilo que a própria IA ajudou a escrever. A Sinceerly promete cortar traços que hoje já viraram caricatura — como travessões demais, frases excessivamente polidas e até pequenos erros “humanos” — porque, segundo o próprio criador, a caixa de entrada ficou tomada por mensagens com cara de robô.
Para mim, isso diz muito sobre o momento atual. A primeira onda da IA foi sobre geração. A segunda está começando a ser sobre normalização. Não basta mais produzir texto. Agora o valor está em parecer menos produzido por máquina. E isso é curioso porque mostra que a automação não eliminou o peso da voz humana; pelo contrário, ela deixou essa voz ainda mais valiosa justamente porque ficou mais rara. É o tipo de movimento que conversa com a guinada da própria Anthropic em refinar o Claude Opus 4.7 com tom mais direto e menos validação automática do usuário.
O lado quase cômico de toda essa engenharia
Também tem um lado quase cômico nisso tudo. A tecnologia primeiro cria uma enxurrada de e-mails com a mesma textura, o mesmo cuidado excessivo e a mesma cara de texto “bonitinho demais”. Depois aparece outra tecnologia oferecendo o antídoto. No fim, a sensação é que estamos construindo camadas e mais camadas para recuperar algo que a escrita já tinha antes: imperfeição, naturalidade e ritmo próprio.
É um eco do mesmo padrão que já apareceu em outras pontas do uso de IA, como no estudo recente que mostrou como os chatbots concordam demais para agradar. A IA aprende a ser excessivamente educada; depois, a gente paga para ela parecer um pouco menos educada. É a tecnologia corrigindo a tecnologia — uma engenharia inversa do tom.
O produto não é inteligência. É desrobotização.
O detalhe mais simbólico talvez seja este: a Sinceerly não vende exatamente inteligência. Ela vende desrobotização. E isso talvez diga mais sobre a fadiga com a escrita sintética do que muitos debates teóricos sobre IA. A diferenciação, agora, está cada vez mais ligada a quem consegue manter voz, marca e fonte intactas dentro de um mundo cada vez mais mediado por IA.
No fundo, talvez o próximo diferencial não seja escrever com ajuda de IA. Seja conseguir usar IA sem soar como todo mundo. Quem aprender a fazer isso primeiro — sem precisar de uma camada extra para “consertar” o que veio do modelo — talvez ganhe a parte mais valiosa da próxima fase: a voz que ainda parece sua.
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