Clima pesa na OpenAI com crises, trocas no comando e pressão por lucro
Mesmo após captar US$ 122 bilhões, dona do ChatGPT enfrenta polêmicas, cancelamentos e mais cobrança por resultados. Ilustração: Bruno Lopes

Clima pesa na OpenAI com crises, trocas no comando e pressão por lucro

Mesmo após captar US$ 122 bilhões, dona do ChatGPT enfrenta polêmicas, cancelamentos e mais cobrança por resultados.

A OpenAI continua sendo uma potência da inteligência artificial, mas o clima em torno da empresa já não é de domínio tranquilo. Dona do ChatGPT e uma das marcas mais valiosas do setor, a companhia entrou em uma fase em que a ambição continua gigante, mas a sensação de controle parece menor. Nos bastidores e fora deles, se acumulam sinais de desgaste: polêmicas públicas, mudança de rota em produtos, mexidas no comando, pressão por receita e uma concorrência cada vez mais agressiva.

O contraste chama atenção porque a empresa segue cercada de dinheiro e influência. Depois de levantar uma nova rodada bilionária e reforçar o discurso de que ainda quer liderar a próxima etapa da IA, a OpenAI agora precisa convencer mercado, parceiros e funcionários de que consegue crescer sem perder o rumo. E essa conta ficou mais difícil nas últimas semanas.

Da euforia ao desconforto

Parte do desgaste começou quando a OpenAI se aproximou mais do governo dos Estados Unidos em projetos de defesa, num movimento que gerou reação dentro e fora da empresa. O episódio alimentou críticas porque aconteceu justamente num momento em que rivais tentavam vender uma imagem mais cautelosa sobre os limites do uso militar da IA.

O problema para a OpenAI não foi só fechar acordos delicados, mas parecer pragmática demais ao fazer isso. Quando uma empresa se apresenta como protagonista de uma tecnologia que pode mudar a sociedade, cada decisão controversa pesa mais. E, nesse caso, a percepção de oportunismo passou a contaminar o debate público sobre a companhia — alimentando dúvidas semelhantes às que já existem sobre a confiabilidade dos chatbots de IA em geral.

Projetos foram cortados e a prioridade mudou

Na sequência, vieram as decisões que deram cara mais visível a essa guinada interna. A OpenAI encerrou o Sora, sua aposta em vídeo gerado por IA, de forma abrupta e surpreendeu até a Disney, que ainda estava em conversas com a empresa pouco antes do anúncio. Também colocou no freio outros planos mais experimentais e deixou claro que quer concentrar energia no que considera mais rentável agora: ferramentas de código, uso corporativo e a construção de um produto mais centralizado.

O recado é claro: a fase de explorar várias frentes ao mesmo tempo perdeu espaço para uma agenda mais dura de foco e monetização. Em outras palavras, a OpenAI parece ter concluído que não pode mais dispersar poder computacional e atenção executiva em projetos paralelos enquanto enfrenta rivais que avançam rápido em áreas mais lucrativas. A discussão sobre se a IA é ferramenta ou ameaça vale também para a própria OpenAI, que agora precisa escolher qual versão de si mesma quer ser.

Até mesmo iniciativas de infraestrutura passaram a emitir sinais mistos. Um dos projetos de data center da empresa no Reino Unido foi pausado em meio a queixas sobre regulação e custo de energia, o que reforçou a leitura de que nem tudo está andando com a velocidade e a fluidez que a narrativa de crescimento costuma sugerir.

O topo da empresa também entrou em turbulência

Se os produtos mudaram de rota, o comando também passou por nova reorganização. A OpenAI anunciou mudanças importantes na cúpula, com Fidji Simo se afastando por licença médica, Greg Brockman assumindo mais responsabilidades sobre produto, Kate Rouch saindo do marketing para cuidar da saúde e Brad Lightcap deixando a operação tradicional para tocar projetos especiais ligados diretamente a Sam Altman.

Isoladamente, qualquer uma dessas mudanças poderia ser tratada como ajuste normal de uma empresa em crescimento. O problema é o acúmulo. Quando cortes de projeto, reposicionamento estratégico e troca-troca no alto escalão acontecem quase ao mesmo tempo, o mercado começa a ler o conjunto como sinal de instabilidade — e não apenas de reorganização.

Foi nesse ambiente que a OpenAI também comprou o TBPN, um programa online de tecnologia e negócios. A justificativa oficial foi criar um espaço melhor para explicar o impacto da IA e melhorar a conversa pública sobre o setor. Mas o movimento também foi lido como tentativa de controlar melhor a própria narrativa num momento em que a empresa vem sendo pressionada de vários lados.

Sam Altman volta ao centro das dúvidas

Como se isso não bastasse, o escrutínio sobre Sam Altman voltou a crescer. Uma nova reportagem da The New Yorker retomou acusações antigas e ampliou dúvidas sobre sua relação com o conselho, com executivos e com compromissos de segurança assumidos ao longo da trajetória da OpenAI. Não se trata de uma crise nova, mas de uma ferida que nunca fechou completamente e reaparece toda vez que a empresa entra em fase sensível.

O timing é ruim porque a OpenAI também se aproxima de mais um capítulo da briga judicial com Elon Musk. O processo já expôs comunicações internas dos primeiros anos da empresa e tende a manter os holofotes sobre decisões antigas, promessas rompidas e disputas sobre a verdadeira missão da organização.

O dinheiro é gigante, mas a pressão agora é maior

A OpenAI ainda parece enorme demais para ser tratada como empresa enfraquecida. Ela tem marca global, escala de uso difícil de igualar e uma base de consumidores que transformou o nome ChatGPT em sinônimo popular de IA. Só que isso não elimina a cobrança. Quanto mais dinheiro entra, mais o mercado quer saber quando esse tamanho vai virar resultado consistente.

É aí que a história fica mais delicada. A empresa precisa mostrar que consegue justificar investimentos bilionários, sustentar a corrida por infraestrutura e, ao mesmo tempo, provar que seu foco atual realmente faz sentido. O desafio cresceu porque a Anthropic ganhou força em programação e a Google segue empurrando o Gemini para dentro de um ecossistema já integrado a busca, nuvem, produtividade e dispositivos.

No fim, a OpenAI continua sendo uma protagonista óbvia da corrida da IA. Mas a sensação de invencibilidade já não é a mesma. O que se vê agora é uma empresa enorme, valiosa e ainda influente, só que mais pressionada, mais observada e obrigada a provar, em tempo real, que sua próxima fase será tão forte quanto a primeira. Como mostra a transformação das redações em 2025, nem mesmo as empresas que criam a tecnologia estão imunes à pressão que a IA impõe sobre quem precisa provar resultado.

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